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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Argumentos contra a peça ficcional do STF: A importância da classificação indicativa

Jornalista responde aos argumentos do Juiz do Supremo Tribunal Federal

OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA
06/12/2011


Classificação Indicativa

O retrocesso brasileiro

Por Mariana Martins 
O Brasil está diante de um retrocesso histórico. A qualquer momento pode ser votada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a queda de parte de uma das maiores conquistas no que tange à regulação da comunicação no Brasil: a Classificação Indicativa. Na tarde da última quarta-feira (30/11), o STF iniciou o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que pede o fim da obrigatoriedade de horários, em conformidade com as faixas etárias, para a classificação indicativa de programas de rádio e TV. Apesar de a ação questionar especificamente a vinculação da programação aos horários adequados às faixas etárias, como prevê, inclusive, o Art. 220 da Constituição Federal, esta medida coloca em risco a eficácia de todo o processo da Classificação Indicativa para televisão e rádio.
A ação, movida pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), já teve o voto favorável de quatro ministros e não houve continuidade da votação ainda na mesma seção porque o Ministro Joaquim Barbosa pediu vistas ao processo. A ADIN é claramente movida pelos interesses das emissoras de rádio e televisão, que desde a implementação das Portarias que regulamentam a Classificação Indicativa tentam derrubá-la. Vale a pena lembrar da tentativa de mudança do fuso horário do Acre em benefício dessas redes há cerca de dois anos e as propagandas criticando o projeto.
O processo que deu origem ao Manual da Classificação Indicativa e às Portarias (1220/2006 e 1000/2007) que regulamentam a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, assim como o Código Civil, além de outras leis correlatas, foi um processo democrático que contou com a participação de diferentes atores da sociedade. Como resultado deste processo, o Brasil tornou-se referência na regulação de uma classificação etária para conteúdo audiovisual e jogos em todo o mundo.
Explicando rapidamente o processo, visto que até os votos dos Ministros demonstram uma clara incompreensão ou desconhecimento das Portarias, a Classificação Indicativa é uma norma constitucional processual que resulta do equilíbrio entre o direito de liberdade de expressão e o dever de proteção absoluta de crianças e adolescentes. Em vários processos legais que envolvem direitos e deveres, haverá colisões entre eles e a busca de uma solução para este embate parte da compreensão dos direitos e das liberdades individuais e coletivas, bem como da observância dos deveres para que se possa viver em sociedade. A Classificação Indicativa é o resultado possível de um processo democrático que visa a resolver conflitos.
Neste processo, especificamente, estão envolvidos o Estado, a sociedade (e aqui também as empresas que produzem conteúdos) e as famílias. Se há uma compreensão mundial, inclusive com acordos e tratados assinados pelo Brasil e pela maioria dos países democráticos, de que as crianças e adolescentes precisam de proteção, o Estado deve garantir as condições da sociedade e da família cuidarem desses seres em clara situação de risco e vulnerabilidade. Indubitavelmente, uma das situações em que os pequenos se encontram em vulnerabilidade é no contato com obras culturais e audiovisuais. Frente à crescente importância que estes meios têm na vida e na formação das crianças e dos adolescentes, não se pode expor sem cuidado determinados temas abordados nestas obras.
Decisão é da família
Dentre estes temas e conteúdos, há consenso sobre três questões relativas à proteção das crianças: a exposição às drogas, à violência a ao sexo. São apenas a partir destes três pontos – seus atenuantes e agravantes – que se posiciona a Classificação Indicativa. É com relação ao percentual de sexo, drogas e violência que uma obra é classificada etariamente. Não há em qualquer momento a sugestão de que o autor altere a sua criação, mas apenas a adequação a uma determinada classificação etária.
E para que serve essa classificação? Ao contrário do que se tenta passar, o Estado não interfere, não dita e não resolve nada do que vai ser visto pelo seu filho ou filha. Esta continua sendo uma escolha da família e somente dela. A Portaria da Classificação Indicativa criou, como resultado de todo processo (do qual participaram advogados, psicólogos, produtores audiovisuais, professores de comunicação etc), o Manual da Classificação Indicativa. O Manual diz respeito a todos os produtos, classificando as obras como “Especialmente Recomendado”, “Livre”, “10, 12, 14,16 e 18 anos”.
Quem faz essa Classificação Indicativa? Em primeira instância sempre o produtor! No caso do cinema e dos jogos eletrônicos, estes produtos são levados ao Ministério da Justiça, que averigua a adequação da obra aos critérios brasileiros. Na grande maioria dos casos, a classificação é adequada e apenas em um percentual muito pequeno existe a solicitação de readequação. Cabe lembrar que os pais podem optar por autorizar seus filhos para que eles vejam filmes com classificação diferente da indicada para sua idade – com exceção apenas dos filmes de 18 anos – ou podem comprar jogos de luta, morte, sexo e drogas para os seus filhotes de 8 anos. A decisão é dos pais! O Estado exige apenas que o produtor classifique e averigua tal classificação, caso isso seja do interesse ou curiosidade dos pais. O produtor, por sua vez, faz seu papel de classificar e submeter à análise do Ministério da Justiça. E à família cabe escolher o conteúdo a que seus filhos vão ter acesso.
Adequação do horário de exibição
No caso da televisão, o produto não passa antecipadamente pelo Ministério da Justiça. Havendo denúncia de inadequação, que pode ser feita pela própria sociedade ou pelos profissionais do Ministério da Justiça que monitoram a programação, o programa é notificado e é solicitada a readequação da classificação sugerida. O que há de diferente para as empresas de rádio e televisão é que a adequação da faixa etária está atrelada aos horários em que as crianças e adolescentes estão expostos à televisão. No caso, os pais que trabalham fora de casa o dia inteiro e que não podem exercer diuturnamente a sua fiscalização, não correm o risco de chegar em casa e saber que seus filhos assistiram na “Sessão da Tarde” um filme com conteúdo de violência, drogas ou sexo inadequado para a idade deles.
O que as redes de televisão querem é a “liberdade” de passar a qualquer hora qualquer classificação e você, que não está em casa o dia todo, ou que se ausentou para ir resolver qualquer problema, ou que estava lavando as roupas, trocando as fraldas ou fazendo o almoço, tenha que lidar com a chance de que seus filhos vejam “Pânico na TV” ou “Cine Prive” à tarde.
O que se está discutindo não é se o Estado vai ou não resolver o que seus filhos vão assistir – já está claro que o papel do Estado não é esse. Ele apenas auxilia para que você saiba o conteúdo e possa escolher, e o que se coloca em questão é justamente a não possibilidade de que pais, mães ou responsáveis estejam presentes o tempo todo com seus filhos. E a depender do julgamento do STF, é o mercado quem vai decidir o conteúdo ao qual os seus filhos terão acesso. E, como se sabe, se o programa “Pânico na TV” tem elevados índices de audiência passando às 23h, vai ter ainda mais passando às 17h – não restam muitas dúvidas de qual será a opção da emissora. Mas você ainda não chegou do trabalho, ou é a hora de pegar o outro filho na escola... problema seu! É isso que está em jogo. São as leis do mercado se sobrepondo à realidade das famílias brasileiras às leis estabelecidas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Há também que se esclarecer que ao contrário do que declarou em seu voto o Ministro Toffoli, a classificação indicativa é presente sim em muitos países. Os Estados Unidos, a Argentina, o Chile, a Áustria e a França são exemplos de países que têm classificação indicativa (www.midiativa.tv/direitos/classindimundo.doc). Não estamos inventando a roda e ainda estamos muito distantes de países democráticos como a Noruega, o Canadá e tantos outros em que a publicidade para crianças já não existe ou é dirigida apenas aos pais. Isso sim é proteger as crianças, que são o presente e o futuro de um país.

sábado, 3 de dezembro de 2011

É preciso pensar no assunto

Texto do Ricardo Kotscho é um belo convite à reflexão sobre a situação do jornalismo atual. Destaque para a atuação de dois grandes jornalistas, um deles é o Zé Hamilton do Globo Rural.

Observatório da Imprensa
02/12/2011

O papel da reportagem no futuro da imprensa


Eu me recuso a falar de novo das estripulias com empregos públicos acumulados, malfeitos e maracutaias de Carlos Lupi, o pândego ministro do Trabalho, que continuava no cargo até o momento em que comecei a escrever este texto, contra a vontade da Comissão de Ética Pública da Presidência da República.
Pela primeira vez na história, a Comissão de Ética pede a demissão de um ministro. É problema da Dilma. Nem eu nem os leitores podemos fazer nada. Virou notícia enguiçada, como costuma dizer o Tutty Vasques. Vamos mudar de assunto.
Prefiro falar do meu tema predileto: a boa e velha reportagem, cuja morte andou sendo anunciada faz tempo, e não só sobrevive como parece ter voltado à moda, pelo menos nas dezenas de debates de que participei este ano em vários cantos do país.
Só hoje [quinta, 1/12], são mais dois, um à tarde e outro à noite. O evento da noite, abertura da série “Repórter”, no Itaú Cultural, é especial para mim porque reencontrarei no palco dois dos maiores mestres deste ofício: Audálio Dantas, que será homenageado por seus 60 anos de atividade na profissão e aproximadamente 80 de idade, e José Hamilton Ribeiro, que anda aí por perto em rodagem nas estradas da vida. Ambos trabalharam na revista Realidade, a mais importante publicação brasileira de todos os tempos.
Sou um pouco mais recente do que eles e tive a sorte de tê-los como mestres e exemplos no trabalho de repórter. Os dois continuam em plena atividade, trabalhando como meninos encantados com o que fazem. Audálio e Zé Hamilton são sobreviventes de uma geração brilhante, que surgiu no começo da segunda metade do século passado, antes que os americanos começassem a falar em new journalism.
Entre mil outras atividades como jornalista, escritor e ativista cultural, ex-líder sindical e deputado federal, Audálio é o editor da excelente revista Negócios da Comunicação. Zé Hamilton continua brilhando como a grande estrela do programa Globo Rural, onde trabalhei com ele por um breve período nos anos 1980.
Boas histórias
Para vocês verem como são as coisas e porque não devemos nunca desanimar. No começo daquela década, Zé e eu fomos convidados por Alberto Dines para participar de um debate na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no Rio, cujo tema era “A reportagem está morrendo?”.
Quase morremos os dois na viagem de volta porque ele cismou de ir de carro, estava chovendo muito e eu sou um péssimo motorista. Uns 30 anos depois, fomos convidados para participar de um debate sobre o mesmíssimo tema na PUC carioca: “A reportagem está morrendo?”.
Continuávamos vivos, como pudemos provar, nós dois e a reportagem, embora tenhamos perdido muito espaço nos últimos anos dominados pelo jornalismo fast-food, mais voltado ao entretenimento e ao denuncismo de prato feito, com honrosas e cada vez mais raras exceções.
Como nós três, além de milhares de reportagens já escrevemos também vários livros, semanas atrás Audálio e eu fomos convidados a participar de um debate sobre “Jornalismo Literário” na Feira Internacional do Livro de Alagoas, em que o amigo, filho da terra de Graciliano Ramos, também foi homenageado.
Estava lá também o Fernando Morais, grande biógrafo brasileiro, e nós três acabamos falando mais ou menos a mesma coisa: os livros foram mera consequência do nosso trabalho como repórteres, não que tenhamos trocado de profissão para ser escritores.
Jornalismo literário, jornalismo investigativo, jornalismo eletrônico, jornalismo isto e aquilo, muitas denominações foram surgindo até aparecer a internet, que revolucionou tudo, mas a natureza da profissão não mudou: olhos e ouvidos bem abertos, precisamos sair às ruas em busca de novidades para contar e explicar o que está acontecendo. Em qualquer plataforma, como se diz hoje, somos aqueles que precisamos descobrir, apurar e contar as histórias do nosso tempo.
É o produto deste trabalho que pode diferenciar um veículo do outro: contar uma novidade, uma boa história que os concorrentes não têm. Dá muito trabalho, às vezes você corre riscos, tem que brigar da pauta à edição, mas vale a pena.
Fé no futuro
Notícia virou commodity, todo mundo publica a mesma matéria-prima produzida por qualquer pessoa, fica quase tudo igual, dos portais da internet ao noticiário da noite na TV, das manchetes dos jornais do dia seguinte às matérias das revistas do fim de semana. Costuma me dar a impressão de que já vi ou ouvi aquilo em algum lugar.
Só os repórteres de ofício podem surpreender seus chefes, leitores, ouvintes e telespectadores com algo original que ninguém contou antes, de preferência com um texto bem escrito, que não precisa necessariamente ser literário.
Nos últimos anos, quem tem feito isto com maestria, consagrada como melhor repórter da sua geração, é a superpremiada Eliane Brum. Não por acaso, é ela quem está organizando, como curadora, o encontro “Repórter” no Itaú Cultural. Eliane e Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural, também participarão do bate-papo, que será gravado para o programa “Jogo de Ideias”.
Vou dizer que é a reportagem, antes dada como morta, que pode garantir o futuro da imprensa de papel. Não é a internet que ameaça acabar com jornais e revistas como leio tanto por aí. É a falta de tesão, a falta de ousadia, a falta de capacidade de se reinventar para sobreviver nesta selva em que agora somos todos emissores e receptores de informações.
Estamos assistindo não a um assassinato, mas ao suicídio de um ramo da imprensa, numa semana em que aFolha de S.Paulo, o maior jornal do país, dispensou 40 profissionais, entre eles repórteres premiados e respeitados como Elvira Lobato, Josias de Souza e Gilberto Dimenstein, e a Editora Globo começa um processo de demissões em cadeia nas suas redações. Aí não dá.
Preciso parar por aqui porque daqui a pouco participarei, junto com outro sobrevivente da melhor qualidade, o Caco Barcelos, do projeto “Memória do Esporte Olímpico Brasileiro” promovido pela ESPN e Instituto de Políticas Relacionais para um grupo de documentaristas em evento fechado, no prédio da Cinemateca.

O dia promete ser longo e as conversas muito agradáveis. Continuo gostando muito de ser repórter e tenho fé no futuro da nossa profissão. Só depende de nós. Espaço a gente sempre acaba encontrando.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Rigor jornalístico? Não é com a Veja.

Observatório da Imprensa ilustra didaticamente a falta de compromisso da Veja com a notícia. Segundo a revista a população da Rocinha flutua ao sabor da preguiça de cada jornalista.

Veja
18/11/2011

Veja e o povo da Rocinha

Por Mauro Malin em 18/11/2011 na edição 668
A TV Globo dá 70.000 (arredondamento do número oficial do Censo de 2010 do IBGE), o jornal O Globo dá 100.000. Nem dentro das Organizações Globo os jornalistas se entendem a respeito da população da Rocinha.

Evidência de distanciamento, desconhecimento, falta de interesse por parte da imprensa, os números da Rocinha sempre foram tratados a pontapés. A população da Rocinha é um número-sanfona. Alguns indivíduos delirantes já chegaram a falar em 400.000 moradores. Seria a maior favela do Rio, do Brasil, da América do Sul, da América Latina. Não é nem do Rio.
Quem já sobrevoou a Rocinha de helicóptero sabe que naquele espaço não cabem 100.000 pessoas, apesar do esforço caprichoso dos moradores para poupar espaço: razão das escadas que parecem degraus de escalada em montanha; razão de uma incidência de tuberculose acima da média da cidade e do país.
A montanha-russa da Veja
Um dos veículos que mais abusaram da ignorância própria e dos leitores foi a Veja. Ao longo dos anos, nas páginas da revista, a população residente da Rocinha andou numa montanha russa. Repórteres e editores nem se deram o trabalho de consultar os números usados na reportagem anterior.

Em dez meses do mesmo ano (1975) a população caiu de 150.000 para 80.000. Subiu para 145.000 em 1978. Em fevereiro de 1980, caiu para 98.000. Meses depois, a população da Rocinha informada pela Vejasaltou para 200.000. Entre 1980 e 1989 não aconteceu nada na favela: a população estacionou em 200.000 moradores. Em fevereiro de 1994, foi dividida por cinco (42.800), mas cinco meses depois apareceria revigorada, com 170.000 habitantes.

Seria uma pândega, se não fosse um crime jornalístico que se constata melhor na tabela abaixo.
      População da Rocinha
            segundo a Veja
16/9/1970
90.000
28/2/1975
150.000
24/12/1975
80.000
9/8/1978
145.000
2/7/1980
200.000
12/7/1989
200.000
20/4/1994
42.800
2/9/1994
170.000
16/3/2005
100.000
6/8/2008
67.000

Quem desconfiar dos dados faça o favor de consultar o Acervo Digital da Veja. Dá um certo trabalho, mas é uma recompensadora viagem ao diletantismo da revista brasileira com maior tiragem.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Denuncismo não é jornalismo investigativo – Parte III


Jornalista questiona os métodos e o compromisso da Veja com a verdade.


Observatório da Imprensa
1º/11/2011
Sujeira não limpa sujeira

Veja derrubou Orlando Silva com uma matéria em que um ex-militante do PCdoB acusava o ex-camarada, então ministro do Esporte, de receber propinas em dinheiro, numa garagem em Brasília.
A denúncia do ex-policial militar João Dias carecia de provas e Veja sabia disso. Mesmo assim serviu-se das aspas, valorizou-as espetacularmente, deixando em segundo plano todas as falcatruas com as ONGs que, aliás, já haviam sido noticiadas e vinham sendo investigadas há tempos pelas autoridades.
O ministro do Esporte foi obrigado a demitir-se porque a Procuradoria Geral da República pediu a abertura de um inquérito e o Supremo Tribunal Federal autorizou-a. A investigação relaciona-se com as falcatruas e não com o recebimento de propinas. Depois da defenestração do ministro, seu acusador confessou à imprensa que desistiria de procurar as provas. Ninguém o cobrou por isso. Nem o semanário sentiu-se na obrigação de sequenciar o episódio.
Garantia de veracidade
Depois de divinizar o jornalismo investigativo como modalidade superior, exclusiva de uma tropa de elite, nossa imprensa está conseguindo avacalhá-lo com procedimentos abusivos. O uso de denúncias explosivas e espetaculares – não comprovadas e não comprováveis – para alavancar outras menos apelativas é um recurso chinfrim, maroto. Cria precedentes perigosos, estimula a criação de uma categoria de agentes provocadores e arapongas que vivem nos corredores do poder – sobretudo em Brasília – bicando tetas ou praticando extorsões.
Para sanear nossa vida pública convém utilizar procedimentos jornalísticos inquestionáveis. Aspas são garantias de veracidade, forjá-las sem comprovação é velhacaria.
Sujeira não limpa sujeira.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O que está acontecendo em Wall Street?

Se depender da imprensa brasileira ficaremos sem saber, de fato, o que significa o movimento “Occupy Wall Street”.

Observatório da Imprensa
11/10/2011
Por Carlos Eduardo Lins da Silva em

Não é incomum que importantes movimentos sociais sejam ignorados pelo jornalismo estabelecido quando ainda estão no começo e são incapazes de mobilizar grande quantidade de pessoas. Em geral, atribui-se esse fenômeno à resistência ideológica da parte de editores e proprietários contra as reivindicações dos movimentos. Mas quase sempre o motivo para esse equívoco é muito mais prosaico.
Diariamente jornalistas têm de peneirar milhares de assuntos que podem estar na sua pauta para ficar com apenas algumas dezenas que efetivamente vão ser trabalhados para exibição ao público. Tal escolha é um dos momentos decisivos do trabalho jornalístico e errar aí pode ter consequências muito graves para o veículo e para sua audiência.
O conservadorismo (não necessariamente o ideológico, mas o da rotina) faz com que muitos jornalistas passem por cima de acontecimentos que estão fora de seu radar habitual. Por isso, preferem manter o conhecido na pauta a arriscar um investimento no que é muito novo e ainda está nebuloso.
Sob holofotes
Provavelmente foi isso que motivou a lerdeza com que muitos meios de comunicação em quase todos os países do mundo, a começar nos EUA, deram atenção às manifestações do “Occupy Wall Street”, que desde 17 de setembro ocorrem nas redondezas do centro financeiro americano, em Nova York, e, de duas semanas para cá, em dezenas de cidades do país.
No começo, só umas dezenas de pessoas, quase todas brancas, jovens e de classe média, participaram, o que ajuda a explicar (mas não justificar) o desinteresse da mídia. Mesmo com pequena participação, o movimento trazia, para qualquer observador arguto, germens de expansão.
A insatisfação dos americanos com sua situação econômica é enorme há muito tempo e surpreendia que ela ainda não tivesse se convertido em explosões públicas de descontentamento. Especialmente entre estratos sociais desacostumados com a penúria, como os brancos de classe média.
Que “Occupy Wall Street” poderia crescer bastante deveria ter sido logo percebido por qualquer jornalista sensível. Mas seu potencial só foi mesmo descoberto em 1º de outubro, graças à falta de profissionalismo dos policiais encarregados de acompanhar passeata que incluía a ponte do Brooklyn. Eles interromperam a marcha pacífica com violência, detiveram 700 pessoas e criaram, com isso, um fato que nenhum jornalista poderia ignorar. Dessa forma, o movimento, que estava empacado – por ser mal formulado politicamente, carecer de ideário, objetivos e palavras de ordem atraentes e ser pobremente organizado –, se espraiou e ganhou a simpatia de muita gente, até do presidente Barack Obama (embora por meio de palavreado pouco explícito).
Não é possível afirmar com segurança se “Occupy Wall Street” vai ou não crescer a ponto de ter alguma influência sobre a sociedade e a política americanas nas próximas semanas ou meses. Embora muita gente fale que ele pode ser o contraponto liberal ao muito bem sucedido “Tea Party” dos ultraconservadores, um abismo os separa em termos de capacidade logística, lógica política e poder de marketing.
O jornalismo, que agora está com o movimento em sua pauta, passará a acompanhá-lo mais de perto, com as vantagens e desvantagens que isso implica para qualquer um que é colocado sob os holofotes da mídia.
Há quem ache que ele não precisa do jornalismo estabelecido para nada e que sua força decorre das redes sociais e das novas tecnologias, nas quais continuará a beber para se expandir. Pode ser, mas por enquanto esses meios de comunicação não parecem ter sido muito eficientes para de fato construir fatos relevantes.
Nota dissonante
Quase 50 anos atrás, também sem apoio da mídia da época e quando tudo que havia para se comunicar interpessoalmente eram telefones fixos, telegramas e cartas, além do contato físico, um grupo de negros completamente à margem dos privilégios da sociedade conseguiu em dois meses de preparos colocar 200 mil pessoas na capital dos EUA.
A “Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade”, que culminou com o discurso de Martin Luther King Jr. em 28 de agosto de 1963, no entanto, tinha propósitos muito bem definidos: combatia injustiças imensas e prementes que afrontavam 10% da população americana (“Occupy Wall Street” diz falar por 99%, mas é difícil que a maioria dos que ele pensa representar realmente o tenha como porta-voz), contava com inspiradores do calibre de Luther King e pessoal dedicado à organização que tinha motivação e capacidade para fazer as coisas funcionarem, tudo que por enquanto falta aos jovens anti-Wall Street.
O debate sobre os temas de que o movimento trata parece, de fato, ter tomado conta da internet, o que – inegavelmente – é algo importante porque coloca temas vitais na agenda de muita gente que até então só usava seus blogs, Twitter e Facebook para tratar de banalidades ou de si próprios.
Mas será que isso vai ser suficiente para que ele venha a ter influência minimamente comparável à da Marcha de 1963, por exemplo, que ajudou de modo indiscutível a aprovar a Lei dos Direitos Civis de 1964?
A resposta a esta pergunta será decisiva para compreender melhor do que são realmente capazes em termos de atuação política e social as novas tecnologias de comunicação.
O jornalismo estabelecido deveria estar muito atento a tudo isso, até por interesse próprio. Não há dúvida de que quando ele se engajou na campanha pelos direitos civis nos anos 1960, sua força ajudou a impulsioná-la (como ocorreria depois em diversas outras situações, como os protestos para acabar com a guerra no Vietnã ou, no Brasil, a campanha das “Diretas-Já”).
Mas, nesta segunda década do século 21, será ainda preciso que ele se alie a um movimento social (ou pelo menos o cubra adequadamente) para que este tenha repercussão e êxito? Muitos acham que não e que “Occupy Wall Street” ajudará a demonstrar a sua tese. Como sempre, o futuro dirá.
Mas o fato por enquanto é que, além de ter chegado atrasada a esse movimento, a mídia estabelecida ainda está longe de cobri-lo bem e de ser um fator importante para a disseminação das suas ideias (ainda que elas sejam mal e pouco definidas).
Na imprensa de países importantes, somente a da Espanha, por meio de El País, vem fazendo um bom trabalho (talvez por já estar escolada pelos meses de ativismo dos “indignados” em Madri e outras cidades).

No Brasil, a cobertura de “Occupy Wall Street” tem sido muito acanhada. Mais uma vez, a nota dissonante positiva, pelo menos até domingo (9/10), veio do caderno “Aliás”, de O Estado de S. Paulo, que dedicou duas páginas para entrevistas e artigos inteligentes e profundos sobre o fenômeno.